U=R.I

 Vermelho | São Paulo - Brasil |  2013

A era moderna surgiu à sombra dos ideais conquistados pela Revolução Francesa. O crescimento das repúblicas e das democracias liberais ao redor do mundo, o desenvolvimento das ideologias modernas, das ciências e das artes, a invenção da guerra total, e, no limite, o homem como personagem central nesse cenário tiveram o seu nascimento durante a revolução.

Muitos artistas se dedicam, nos dias de hoje, à pesquisa acerca dos desdobramentos do modernismo. Há ainda os que preferem investigar as raízes filosóficas, éticas, estéticas e politicas que conduziram, ainda no século XVI, ao surgimento da era moderna e ao pleno estabelecimento e expansão dos ideais liberais em todos os âmbitos da cultura ocidental até os dias de hoje. Tal procedimento investigatório é evidente na exposição U=R.I.

O título da exposição faz referência à fórmula usada na física para medição da tensão elétrica [voltagem] entre dois pontos, e, no caso dessa exposição, revela vários dos procedimentos exercidos pelo artista na conceitualização, elaboração e materialização de suas obras. Isso ocorre na forma como o artista opta por representar o corpo humano.

Nos trabalhos de Guilherme Peters a repetição funciona como ferramenta para evidenciar a eterna busca do homem pela superação dos limites físicos e intelectuais do corpo. Na performance “Estudante” [2012], que Peters realizará durante a mostra, a repetição ad infinitum de um único movimento, aponta, segundo o próprio artista, para a ideia de fracasso iminente a todo processo de conhecimento. Na performance, o artista tenta repetidas vezes finalizar um desenho de observação que, entretanto, depende da ação física de suspender, por meio de um sistema de roldanas e cabos, conectados como próteses ao seu corpo, livros relacionados à historia da arte.

Em 2010, Guilherme Peters encarnou um dos principais personagens da história moderna no vídeo “Robespierre e a tentativa de retomar a revolução”. Na instalação, o artista tece um comentário sobre da origem do movimento republicano, que aponta para a impossibilidade da utopia revolucionaria prosperar num mundo em que tarefas simples e repetitivas provocam “vertigem”.  Em U=RI, o artista dá continuidade a essa pesquisa apresentando um conjunto de trabalhos diretamente relacionados ao tema, como a instalação “Retrato de Robespierre”, na qual uma imagem do revolucionário francês é estampada por meio de um processo de oxidação ininterrupto, que transformará a imagem.

Processo químico semelhante é utilizado por Peters nas instalações “Autodestruição dos direitos humanos”, “Terra Santa” e “Máquina para evocar o espírito de Joseph Beuys através de sua imagem”. Nas duas primeiras obras, o processo de oxidação das placas de ferro é constante e acarretará a completa transformação da imagem do século XVIII da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, e, na segunda, de uma passagem retirada do Torá que remete à terra prometida, ou, nos dias de hoje, à Palestina. Já em “Máquina para evocar o espírito de Joseph Beuys através de sua imagem”, que faz referencia à performance criada por Peters, em 2009, o retrato de Beuys, ao lado de um do próprio artista foram estampados sobre uma placa de cobre [Beuys] e outra de ferro [Peters]. Submersos em um aquário, as placas sofrerão um processo de eletrólise, que fará com que o retrato de Peters, estampado sobre placa de ferro, incorpore partículas de cobre expelidas da placa Beuys.

Peters usa o formato de diagramas, esquemas, gráficos e circuitos, que, na historia do conhecimento, auxiliaram o homem a organizar o conhecimento e asseguraram a base para a compreensão futura de suas aquisições, para abordar questões subjetivas. É o que ocorre em “Projeto para um grande resistor” e “Projeto para grande carburador”. No primeiro, Peters utilizou paginas do Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung como papel de fundo para um grande desenho de um circuito elétrico, e, no segundo, o desenho para o projeto de um grande carburador sobrepõe notas sobre a Revolução Francesa.

The modern era arose in the shadow of the ideals won by the French Revolution. The growth of the liberal democracies and republics around the world, the development of the modern ideologies, the sciences and the arts, the invention of total war, and, most significantly, man as a central character in this scene, were born during the revolution.

Many artists nowadays are dedicated to researching about the unfoldings of modernism. There are those who prefer to investigate the 16th-century philosophical, ethical, aesthetic and political roots that led to the rise of the modern era and the full establishment and expansion of the liberal ideals in all the spheres of West- ern culture until today. This investigatory procedure is evident in the exhibition U=R.I.

The exhibition’s title refers to the formula used in physics for the measurement of electrical tension (voltage) between two points, and, in the case of this exhibition, reveals a number of the procedures exercised by the artist in conceiving, elaborating and materializing his works. This takes place in the way that the artist have chosen to represent the human body.

In Guilherme Peters' works the repetition operates as a tool to evidence man’s eternal search for overcoming the physical and intellectual limits of the body. In the performance “Estudante” [2012], which Peters will stage during the show, the repetition ad infinitum of a single movement refers, according to the artist himself, to the idea of the eminent failure of the entire process of knowledge. In the performance, the artist repeatedly tries to finish an observational drawing which, however, depends on physical action to suspend books related to the history of art by means of a system of pulleys and cables connected like processes to his body.

 

In 2010, Guilherme Peters embodied one of the main characters of modern history in the video “Robespierre e a tentativa de retomar a revolução” [Robespierre and the Attempt to Resume the Revolution]. In the installation, the artist weaves a commentary about the origin of the Re- publican movement, which points to the impossibility of the revolutionary utopia to prosper in a world in which simple and repetitive tasks provoke “vertigo.” In U=RI, the artist continues this research by presenting a set of works directly related to this theme, such as the installation Retrato de Robespierre, in which an image of the French revolutionary is printed by way of a continuous process of oxidation, which will transform the image.

A similar chemical process is used by Peters in the instal- lations Autodestruição dos direitos humanos [Self-Destruction of the Human Rights], Terra Santa [Holy Land] and Máquina para evocar o espírito de Joseph Beuys através de sua imagem [Machine to Evoke the Spirit of Joseph Beuys by Means of His Image]. In the first two works, the process of the oxidation of iron plates is con- stant and will lead to the complete transformation of the image of the 18th-century “Declaration of the Rights of Man and of the Citizen,” and, in the second, of a passage excerpted from the Torah which refers to the Promised Land, or present-day Palestine. For its part, in Máquina para evocar o espírito de Joseph Beuys através de sua imagem, which makes reference to the performance created by Peters in 2009, Beuys’s portrait and one of the artist himself were embossed side-by-side on a copper plate (Beuys), and an iron plate (Peters). Submersed in an aquarium, the plates will undergo a process of electrolysis, which will make the portrait of Peters, on the iron plate, incorporate particles of copper given off by the Beuys plate.

Peter uses the format of diagrams, schemes, graphics and circuits, which, in the history of knowledge, helped man to organize knowledge and assured the basis for the future comprehension of his acquisitions, to approach subjective questions. This is what occurs in “Projeto para um grande resistor” [Project for a Large Resistor] and “Projeto para grande carburador” [Project for a Large Carburetor]. In the first, Peters used pages from Mao Tse-tung’s Little Red Book as the backdrop for a large drawing that imitates an electrical circuit, and, in the second, the drawing for the design of a large carburetor is overlaid on notes about the French Revolution.